Era carnaval de 99 quando, pela primeira vez, pisei os meus pés no solo sagrado de Ilha Grande. Desde então, perdi a conta de quantas vezes retornei àquele paraíso. Entretanto, foi num outro carnaval, o de 2002, mais precisamente na semana anterior, que resolvi conhecê-la melhor e entender o porquê tamanha paixão.
Mochila nas costas, vento no rosto e pés na trilha, iniciei a minha volta completa à Ilha. Detalhe, sozinho. Sentia que precisava desvendar os mistérios desse lugar e o motivo de tanto fascínio exercido sobre mim. Foram seis dias de pura aventura, mais ou menos oitenta quilômetros de caminhadas, emoções e sustos dos mais diversos, com imagens que ficarão para sempre em minha memória e um acervo espiritual que me revigora a cada lembrança.
A minha relação com a Ilha Grande é de amor, admiração e respeito. E quando a gente gosta tanto de alguma coisa, é natural que esse sentimento fique registrado. Daí a razão do álbum de fotos e do diário de bordo.
ILHA GRANDE A PÉ
Os 193 quilômetros quadrados da ilha abrigam uma profusão de cenários paradisíacos que vão desde praias de areia branca e águas transparentes até vegetação remanescente de Mata Atlântica primária do planeta.
Não bastassem os inúmeros atrativos naturais, a Ilha Grande conserva resquícios importantes da história do Brasil, a exemplo das ruínas do Lazareto, leprosário construído em fins do século 19 por dom Pedro II. Ou ainda as paredes do extinto Instituto Penal Cândido Mendes, o presídio que ficou conhecido como Caldeirão do Diabo e testemunhou fatos marcantes da criminalidade brasileira.
Conhecer, um a um, cada pedacinho da Ilha Grande, só é possível de uma maneira: a pé. Dar a volta na ilha é trabalhoso, já que o relevo é muito acidentado, mas recompensador.
O ponto de partida dessa jornada é a charmosa Vila do Abraão, lar da maior parte dos 5 mil moradores da ilha e dona da invejável estrutura turística que atrai tantos visitantes estrangeiros.
Logo que a caminhada começa, o burburinho da Vila do Abraão dá lugar ao silêncio solene de um passado remoto, onde as ruínas do Lazareto são o primeiro ponto de parada, 20 minutos depois.
A trilha segue agora em direção às praias da Feiticeira, Camiranga e da Enseada das Estrelas - cada uma com sua beleza particular. Caminha-se entre contrastes de vilarejos de pescadores e ricas mansões.
O primeiro dia de caminhada é completado ainda pelas paradisíacas lagoas Azul e Verde e pelas vilas de Japariz, Freguesia de Santana e Bananal. As águas serenas da Praia de Araçatiba são as últimas ainda do lado do continente. Dali em diante é tudo mar aberto. A parte mais selvagem da ilha está a caminho.
Chegando à Praia do Aventureiro, não é apenas a calmaria do mar que muda. Acaba também a eletricidade, e com isso você é transportado para uma atmosfera rústica, onde a noite é silenciosa e o luar reina majestoso. Por isso mesmo Aventureiro mereceu mais do que uma noite de acampamento, fazendo jus ao nome que leva.
Na seqüência encontra-se a Reserva Biológica da Praia do Sul que é a zona predileta dos surfistas que curtem as ondas das praias do Sul e do Leste.
Parnaioca é a próxima parada e com ela um espetáculo à parte da natureza. Impossível passar rapidamente por ali. Seu astral e visual convidam a deixar a barraca montada por dois dias.
Já no último dia de trilha surge Dois Rios, a famosa praia que abrigava o Instituto Penal Cândido Mendes, desativado em 1994 e também conhecido como Presídio da Ilha Grande.
Restam pouco mais de 20 quilômetros para alcançar de novo a Vila do Abraão. Ficam para o final as praias de Cachadaço e Lopes Mendes, que merecem um lugar na lista das mais belas do Brasil.
Fim de aventura e uma certeza: Ele criou esse lugar para passar férias, portanto? FAVOR NÃO PERTURBAR O DESCANSO DE DEUS ?
José Carlos Albino é amigo e passageiro da InBrasil e já está de viagem marcada para Itacaré - Bahia em setembro deste ano.
Foto: Divulgação